Cefuria: três décadas e meia de conquistas

Seminário 35 anos (foto_Ednubia Ghisi) (83)

Por Luis Pequeno, educador popular do Cefuria

Neste 1º de agosto, sintam-se parabenizados(as) homens e mulheres, trabalhadores no campo ou cidade, do Paraná ou Santa Catarina (como nas origens do Centro de Formação Urbano Rural).

O empréstimo do nome de Tereza Araújo a esta entidade revela-se indiscutivelmente apropriado. Aquela pequena grande lutadora não só rompeu com os regramentos conventuais vicentinos como pôs-se, com suas co-irmãs, a desbravar as redondezas da periferia do então recém aberto Bairro Boqueirão, na década de 70, na tranquila Curitiba.

De lá para cá, as organizações do povo só avançaram, alimentadas espiritualmente pela grandeza e pujança da Teologia da Libertação e das Comunidades Eclesiais de Base, principalmente na região Sul da cidade; alimentadas politicamente pelo engajamento da Fé e da Vida, numa dimensão que efervescia e se traduzia na criação de Associações de Moradores, Sindicatos de Trabalhadores, Partido Político, Movimentos por Terra e Moradia, Central de Sindicatos ou de Movimentos, entre outros organismos.

Na década da criação do Cefuria, conquistou-se nacionalmente, com luta e sacrifício o processo de escrita e aprovação da Constituição chamada “Cidadã”. Ainda que não a ideal, foi a possível para o momento. Em outros tempos, na década de 90, foi o Cefuria ambiente seguro de muito diálogo, organização e articulação para que a própria Carta Magna viesse a sair do papel, deixasse de ser letra morta. A onda neoliberal e a estabilidade da moeda forçavam tomar atitudes contra hegemônicas.

Nos anos 2000, já consolidadas lutas e organizações dos mais variados tipos como associações, cooperativas, pastorais, movimentos sociais ou entidades batizadas com um nome estranho de “não governamentais”, novos desafios foram sendo priorizados como, por exemplo, o enfrentamento da vulnerabilidade social a partir de ações não mais caritativas, mas construídas com perspectiva mais duradoura. Mulheres, em especial, aguçadas na percepção, começam a transformar suas ações tímidas e isoladas lá na comunidade, como as primeiras padarias, em uma iniciativa mais encorpada. Surgem Clubes de Trocas e um novo conceito, até antes não ouvido por essas bandas: “Economia Popular Solidária”, inspirada nas experiências vividas na Argentina e que liderança do Cefuria foi viver de perto.

O nascedouro dos Fóruns Sociais, bem como da Escola de Formação Básica Multiplicadora em Economia Solidária (carinhosa “Escolinha”) inspiraram a propagação de dezenas de iniciativas populares e o fortalecimento de visões amplas sobre o tema para lideranças populares, estudantes universitários(as), entre outros atores.

Na década atual outros desafios se apresentam. Apesar de inúmeras conquistas na vida de trabalhadores brasileiros(as) no campo da promoção de direitos e condições de melhor e maior consumo de bens, as mazelas da nação continuam a suplicar socorro:  não há democracia participativa, não se fez reforma agrária ou urbana, não há regulamentação sobre o controle de meios de comunicação, só para exemplificar. A lista é vasta.

Mas também há teimosia: na esteira do bem sucedido trabalho da Rede de Educação Cidadã, aliar Economia Solidária e Educação Popular com População em Situação de Rua, após ter conquistado o primeiro lugar em elaboração de projeto junto à extinta Secretaria Nacional de Economia Solidária é motivo de muita responsabilidade e confiança no potencial da instituição, que são suas pessoas, em todas as diferentes instâncias.

Não seria o Cefuria quem é, um verdadeiro “berçário” de organizações populares e de formação e comunicação com lideranças críticas e protagonistas, sem a ajuda, articulação, convênio com instituições públicas ou da sociedade civil, nacionais ou internacionais, além de pessoas físicas comprometidas com as causas populares e que dedicaram e dedicam seu tempo e entusiasmo nas lutas da classe trabalhadora.

E a Educação Popular Freireana segue firme, odiada por uns e abraçada individualmente por tantos, como valor imprescindível para a clareza de posturas que cada ser político precisa ter.

Os dias atuais são de extrema angústia, engodos, golpismos, polarizações, difamações, perseguições e chacinas a quem pensa ou age confrontando o regime capitalista e as migalhas que dele se partilha para quem é trabalhador(a). Tanto é que lutas históricas como a diminuição da carga de trabalho de 44 para 30 horas semanais seguem mais vivas que nunca.

Sem querer dar por encerrada a análise, devido à vastidão de elementos que aqui caberiam, essa história viva não para. E quem ler esse texto pode se sentir convidado(a) a fortalecer essa experiência sempre inacabada deste Centro de elaboração e construção de saberes, que é rica, linda, entusiasta, carente de recursos autofinanciáveis, mas confiante de que seu legado e seu trabalho sério e questionador frutificará sempre.

E viva a construção do Poder Popular!

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