Catadores temem contágio por coronavírus e desamparo do poder público

Foto: Arquivo Associação Ilha

Publicado originalmente no Brasil de Fato Paraná

Por Lia Bianchini

“A gente está meio assustada com esse vírus, parece que está vivendo num mundo de guerra”. A fala é de Natalina Cândido Rodrigues, de 45 anos, catadora de materiais recicláveis da Associação de Catadores Ilha, em Almirante Tamandaré.

O “mundo de guerra” de Natalina é um lugar onde faltam os itens básicos para a manutenção da vida, como alimentos e produtos de limpeza e higiene. Desde o dia 20, o barracão da associação está fechado e as 18 pessoas que lá trabalham estão sem nenhum tipo de renda.

O material da reciclagem era vendido semanalmente, gerando de R$ 200 a R$ 300 para cada trabalhador. A atividade, no entanto, tem grande risco de contágio pelo coronavírus. No barracão, são manipulados todo tipo de material: papelão, plástico, ferro, materiais hospitalares. Pesquisas apontam que o vírus pode sobreviver nesses materiais por horas ou até dias (no plástico, por exemplo, ele sobrevive por até 3 dias).

Natalina conta que é a arrimo de família, mãe de seis filhos. Em sua casa, moram ela, um filho de 16 anos e outro de 3. Hipertensa, a catadora faz parte do grupo de risco. Dentro desse cenário de crise, teme pela própria saúde e também pela possibilidade de não conseguir colocar comida na mesa. “Minha preocupação maior é o pequeno, que só tem 3 anos, ele não tem noção. Chegou a hora de comer, ele vai querer comer. Essa é a preocupação que está me deixando de cabelo em pé”, diz.

Reivindicações

A prefeitura de Almirante Tamandaré informou que disponibiliza cestas básicas para trabalhadores da reciclagem e que está elaborando um plano de contingência para atender a demandas específicas.

Também catadora na Associação Ilha, Ariadne Ferreira avalia como importante o benefício da cesta básica, porém insuficiente. Mãe de um menino de 13 anos e casada com outro trabalhador da reciclagem, ela conta que a cesta que recebeu neste mês foi dividida com a mãe, que também está afastada do trabalho. E, além da alimentação, outras necessidades se acumulam. “A gente sente dificuldade principalmente para pagar as contas de luz, água, internet”, explica.

Coletivamente, trabalhadores da Associação Ilha reivindicam renda mínima que possibilite garantir itens como materiais de limpeza e higiene e pagar contas básicas. Além disso, pedem que a prefeitura disponibilize um local em que os materiais que serão entregues à reciclagem possam ser armazenados por, pelo menos, sete dias. Assim, os riscos de contágio diminuem e o barracão pode ser reaberto.

Ajude a Associação Ilha

O projeto de extensão da Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR) “Atentar-se à exclusão para contribuir com a inclusão”, em parceria com o Centro de Formação Urbano Rural Irmã Araújo (Cefuria), está organizando doações para ajudar catadores de materiais recicláveis de Almirante Tamandaré. Qualquer valor pode ser doado na conta:

Banco do Brasil

Agência: 1622-5

Conta: 8874-9

CNPJ: 76660844/0001-20

Cuidado com o que você descarta

Em outros municípios, muitos catadores de material reciclável continuam em atividade. Para diminuir os riscos de exposição desses trabalhadores ao coronavírus, você pode tomar os seguintes cuidados com o material que descarta:

  • Não colocar máscaras, luvas e lenços umedecidos no material reciclável.
  • Após o uso, reservar o material reciclável em casa de 3 a 5 dias e só depois descartar.

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