Everlindo Henklein: Presente, presente, presente!

Às vésperas da passagem de 2020 para 2021 nosso querido Everlindo Henklein fez sua passagem. Ele é um dos fundadores do Centro de Formação Urbano Rural Irmã Araujo – CEFURIA, mas sua grandeza e importância transcendem a criação do Centro de Formação.

O portal IHU – Unisinos publicou um artigo de César Sanson que homenageia este militante que foi fundamental para os movimentos sociais do Paraná.

 

Everlindo Henklein – *1949 – +2020 – uma geração e um Kairós

Aos 71 anos, vítima de complicações da Covid-19, agravada pelo mal de Parkinson, faleceu no dia 30 de dezembro de 2020 na cidade de Curitiba – PR Everlindo Henklein.

O texto é de Cesar Sanson, professor de Sociologia do Trabalho na Universidade Federal do Rio Grande do Norte – UFRN.

Economista, servidor aposentado da Secretaria de Estado da Fazenda do Paraná, Everlindo foi uma significativa referência para toda uma geração de militantes e organizações sociais no estado do Paraná nos anos de 1970 a 1990. Acometido do mal de Parkinson a partir de meados dos anos 1990 aos poucos foi se afastando da militância, porém, mesmo com grandes dificuldades e na provação da doença, não deixou de participar de muitas atividades.

Everlindo era muito estimado pelos amigos por sua inteligência, sensibilidade, discrição, afabilidade no convívio pessoal e o cultivo de uma espiritualidade comprometida. É considerado predecessor de uma geração de militantes. Segundo José Dari Krein “foi nosso grande mestre, tanto nas reflexões quanto no testemunho de vida”.

Everlindo Henklein participou ativamente no estado do Paraná da criação de organizações como a Pastoral Operária, a Comissão Pastoral da Terra – CPT, o Centro de Formação Urbano Rural Irmã Araújo – CEFURIA, a Comissão Pontifícia de Justiça e Paz, o Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos – DIEESE. Em função de sua sólida formação era costumeiramente chamado para assessorias de pastorais e movimento sociais.

Iniciou a sua militância política no movimento estudantil na Universidade Federal do Paraná – UFPR nos anos 1970 à época como estudante do curso de economia e agrupou-se a outros jovens com uma característica em comum: cristãos que se sentiam impulsionados a lutar contra as injustiças sociais. Um dos seus contemporâneos de Universidade, Lafaiete Neves, comenta que Everlindo “foi um lutador pela redemocratização da universidade e em defesa da universidade pública e gratuita”.

Everlindo foi também companheiro de oração. Frequentávamos o mesmo Mosteiro, os Trapistas em Campo do Tenente-PR”, comenta Silvio Miranda, outro dos muitos amigos seus. O cultivo de uma forte espiritualidade que se manifestava no engajamento social era outro traço de Everlindo, conhecido, porém, apenas por seus amigos mais próximos.

Um militante cristão mestre no testemunho afirma Dari Krein: “sempre muito presente, mas nunca disputando espaços de poder, nem buscando insistir para que a sua visão prevalecesse. Não lembro na nossa trajetória de convivência de um único momento em que ele tenha alterado a voz ou que tenha feito qualquer discussão sem muita serenidade. A sua postura era de um verdadeiro democrata, que sempre respeitava a definição da maioria”.

“Sentiremos a sua falta”, afirma Clemente Ganz Lucio, outro de seus amigos que acompanhou de perto sua trajetória e concluí que a falta será em função do “companheirismo e pela atenção que sempre dedicou a todos, pelo seu caráter humanista presente nas relações e nas suas ações, a sua fala sempre em tom mais baixo, mais muito forte em valores como solidariedade, justiça, igualdade e sempre buscando convergências, algo essencial hoje”.

Everlindo deixa a esposa Regina Maria Heinklein, três filhos – JoanaPedro e Isabel – e quatro netos.

Reunimos, na sequência, alguns testemunhos de companheiros que acompanharam a sua trajetória de vida.

Everlindo: nosso generoso mestre

Dari Krein, filósofo e economista; ex-coordenador da Pastoral Operária no Paraná e Nacional, assessor do movimento sindical da CUT, professor da Unicamp

vida do Everlindo é o testemunho de uma combinação muito intensa da fé cristã com a luta pela transformação social. Duas dimensões que se entrecruzaram em toda a sua vida, buscando viver uma espiritualidade com engajamento em pastorais sociais e movimentos populares, na perspectiva de tornar concretos os valores cristãos da solidariedade, da justiça social e do amor ao próximo. Viveu com intensidade o que é ser cristão a partir da Teologia da Libertação.

Foi – e continua sendo – o nosso grande mestre, tanto nas reflexões quanto no testemunho de vida. Com uma formação mais profunda, sempre chamava a atenção – não só nas boas prosas dos encontros diretos, mas especialmente nos momentos das inúmeras ‘assessorias’ (palestras, reflexões em atividades coletivas) – para as contradições existentes e as alternativas presentes no contexto concreto que estávamos vivendo. Exercia um papel de intelectual orgânico num momento em que boa parte da militância priorizava a ação e não o estudo (“não basta interpretar o mundo, mas é preciso transformá-lo”). As posições sempre ponderadas sobre os riscos e as dificuldades foram fundamentais para balizar melhor as estratégias de ação coletiva. Muitas das nossas leituras e reflexões na caminhada coletiva foram feitas interagindo com Everlindo.

Mestre no testemunho. Sempre muito presente, mas nunca disputando espaços de poder, nem buscando insistir para que a sua visão prevalecesse. Não lembro na nossa trajetória de convivência de um único momento em que ele tenha alterado a voz ou que tenha feito qualquer discussão sem muita serenidade. Ao mesmo tempo, sempre estava junto e assumindo o que o coletivo definia, colocando-se a serviço no que poderia contribuir. A sua postura era de um verdadeiro democrata, que sempre respeitava a definição da maioria.

O seu forte nível de engajamento pode ser observado nas diferentes contribuições que deu na caminhada que compartilhei desde os anos 1980. Posso testemunhar a sua participação na estruturação da Pastoral Operária, tanto quanto o seu empenho para fortalecer a CPT, as Comunidades Eclesiais de Base (especialmente na região do Xaxim), a Serralheria ABC (uma das primeiras organizações de economia solidária, viabilizando a manutenção de companheiros na categoria dos metalúrgicos na perspectiva de disputar as eleições sindicais), o DIEESE (primeiro coordenador Regional), o CEFURIA (Centro de Formação Urbano Rural Irmã Araújo) de apoio aos movimentos populares e sindicais, o Movimento de Luta Contra o Desemprego (1981-1984), o apoio às oposições sindicais. Além das inúmeras assessorias que realizou para diversas pastorais e movimentos populares e sindicais, organizou a equipe de análise de conjuntura do Cefuria, que passou a produzir o boletim Ponto de Vista (nome sugerido por ele), publicação que mais adiante se tornou jornalzinho do Cefuria e, depois, sempre contando com o apoio do Everlindo, constituiu o jornal Folha Popular. Ou seja, a sua presença firme de apoio é imensa e constante.

As histórias de todas essas iniciativas passam pela bela contribuição do nosso mestre Everlindo. Uma presença que não se limitava à reflexão e à participação em atividades coletivas, mas incluía muitos gestos de solidariedade e apoio tanto no nível do coletivo quanto do individual para muitos militantes que estavam na luta. São inúmeros os gestos de solidariedade e de apoio pessoal que deu para muitos de nós que no decorrer das lutas.

O testemunho de vida e fé também esteve presente na forma como encarou a doença de Parkinson, que progressivamente foi limitando os meus movimentos. Lembro-me, no início dos anos 1990, quando voltávamos de encontro Fé e Política do Rio de Janeiro, que o Everlindo falou pela primeira vez da doença, afirmando que já não conseguia amarrar os cadarços dos seus sapatos, depois lembro quando deixou de dirigir e os crescentes limites que a doença foi lhe causando progressivamente. A primeira conversa sobre a doença foi, se minha memória não falhar, quando tinha 42 anos de idade. Uma conversa que nos marcou, pois continuamos tendo muito proximidade nos anos seguintes, mas no sofrimento da doença sempre mostrava serenidade e se mostrava um guerreiro que continua nas batalhas pela transformação social, que gostava de interagir e se informar sobre o que ocorria com os movimentos sociais.

Por mais de 30 anos encarou com uma dignidade impressionante o calvário, sempre buscando manter ativa a espiritualidade e a vida intelectual. Mesmo com o avanço da doença, foi possível, com e pela ajuda valiosa, presente e inigualável da Regina, reconstruir a nossa comunidade cristã e de engajamento na luta social, que foi se espalhando geograficamente com o tempo, mas que reuniu novamente nos “amigos de Curitiba”. Nos últimos anos, em muitos momentos, foi possível, sempre na casa do Everlindo e da Regina, retomar os encontros físicos de partilha e celebração até quando a pandemia permitiu. No ano de 2020, retomamos com frequência os encontros virtuais. Ou seja, para muitos de nós era a nossa verdadeira comunidade.

Por último, pessoalmente, como muitos outros que fazem parte dessa mesma comunidade, lembro da sua generosidade e da sua ajuda inestimável em nos incentivar a trilhar os caminhos da vida que levamos adiante. A trajetória de vida de muitos militantes foi marcada por essa comunidade cristã que começou a se formar nos anos 1970 (ingressei no início da década de 1980), mantendo acessa a chama da mudança social e de uma espiritualidade engajada. Por isso, somos quem somos pelo coletivo que participamos. Nesta formação coletiva, de comunidade, o Everlindo sempre foi uma referência e um esteio. A Passagem do Everlindo tira um pedaço de nós, da nossa trajetória pessoal e coletiva, mas o seu testemunho de vida continuará nos guiando e alimentando nossa fé e a nossa luta pela transformação social.

Everlindo Heinklein: uma geração e um Kairós

Sílvio Miranda, médico; animador de comunidades eclesiais de base, ex-vereador pelo PT em Curitiba (1989-1992).

Nos anos 70 e 80 vivemos um tempo especial, um Kairós. Toda uma geração de jovens que, seguindo um espírito de mudança e radicalidade, engajou-se nos movimentos contra a ditadura e na formação de movimentos populares que construíssem uma nova sociedade, em busca da utópica ideia de num novo homem e uma nova mulher.

Interessante que algumas pessoas foram inspiração e liderança de outras e assim foram se formando grupos e mais grupos que se engajaram na formação do PT, da CUT, do MST, de Associações de Moradores, de Centros Populares de Formação etc.

Em Curitiba, uma destas pessoas foi Everlindo Henklein. Ele e a sua esposa a Regina, contribuíram de forma marcante no crescimento destes movimentos, e não só na capital, mas no Estado do Paraná.

Everlindo, após 30 anos de sofrimento, carregando as dificuldades da Doença de Parkinson, acabou falecendo vítima de complicações da Covid 19.

Lembro-me bem dele em nossa comunidade no bairro Boqueirão (periferia de Curitiba), um dos locais pioneiros das CEBS em nossa cidade, dando curso sobre como funciona a sociedade. Economista como ele, trazia de vez em quando análises de conjuntura, contribuindo com a atividade pastoral e política de nossa comunidade e de outras tantas.

Lembro-me também voltando com ele de ônibus do centro para o nosso bairro, após reuniões de formação de Pastoral Operária. Seu jeito calmo, animado e estimulante me fazia seguir também na militância.

Como integrante do DIEESE contribuiu muito na assessoria de movimentos em todo país. Lembro-me que na primeira eleição de Lula para presidente, seu nome foi cogitado para estar no Ministério da Economia com Valter Barelli.

Everlindo foi também companheiro de oração. Frequentávamos o mesmo Mosteiro, os Trapistas em Campo do Tenente. Tínhamos como orientador espiritual o mesmo “Manu”, padre operário, que já com seus 70 anos entrou naquele mosteiro de estrita observância. Por sinal, com certeza, já devem estar conversando lá onde todos esperamos chegar, depois que consumirmos nossos passageiros dias por aqui.

Trinta anos de Parkinson foram muito sofridos para ele. Ultimamente mal conseguia se deslocar, não se entendia o que falava. Mas em nossos encontros, mesmo nestes tempos de pandemia, ele estava presente na tela do computador ao lado da Regina. Seus comentários sempre foram curtos e lúcidos, de sabedoria.

Somos uma geração muito influenciada pelo pensamento filosófico de MarxFreudNietzsche e outros. Como foi o encontro destas ideias com nossa origem e opção de fé cristã? Foi cheia de conflitos, mas positiva. Todos nós, e muito o Everlindo, nos fez homens e mulheres de Fé; com muitas dúvidas aprofundamos o estudo da teologia (fizemos muitos encontros de estudo do tema cristianismo e marxismo) e aprofundamos a espiritualidade. Como dizia o monge trapista Thomas Merton, a pessoa que não tem dúvidas, não é uma pessoa espiritual.

Conviver com o Everlindo estes anos todos, vendo o seu sofrimento, sua reação assertiva e resiliente, aumentou nossa compaixão, nossa fé e nossa esperança. Nestes últimos dias de seu internamento, nosso grupo de amigos próximos se reunia pela internet para rezar por ele e pela Regina. Também após o seu passamento, virtualmente, fizemos o rito de sua passagem. Concluímos que o que nos une é a mesma fé. Cremos na Palavra que se fez carne, sofreu, como a maioria do povo, mas que um dia ressuscitou, garantindo a vitória dos sofridos e excluídos, e para todos, um reencontro de felicidade para sempre.

Everlindo, uma vida por muitas causas

Lafaiete Neves, economista, professor aposentado da UFPR; animador de comunidades de base nos anos 1980; um dos criadores da Comissão Pontifícia de Justiça no Paraná, ex-dirigente da ANDES Nacional, ex-dirigente da APUF-PR, ex-candidato a vice-prefeito pelo PT em Curitiba em 1985.

Eliana Neves, professora e educadora popular; ex-dirigente da APP-Sindicato, militante dos movimentos de mulheres.

O nosso companheiro de tantas lutas, venceu o cansaço e chegou a outra margem do rio, como disse com muito amor a sua companheira de jornada Regina Henklein.

Escrever sobre o Everlindo, nesse momento difícil, não é difícil, por mais contraditório que pareça. Everlindo combateu o bom combate, guardou a fé, no mais amplo sentido que possamos dar, crentes e não crentes, entre os quais ele tem grandes amigos.

Falar do Everlindo é falar da sua companheira de todas as horas, Regina. Nós nos conhecemos nos idos anos de 1970, participamos de um coletivo de luta estudantil vindos de várias áreas: odontologia, filosofia, física, história, letras, ciências sociais, biologia, envolvidos na luta contra a ditadura e seus instrumentos de repressão. O decreto 477, cujo alvo eram os estudantes, foi baixado, quando era Ministro da Educação, Flavio Suplicy de Lacerda, ex-reitor da UFPR, que teve seu busto arrancado do pátio da reitoria em 1968, arrastado pelos estudantes pelas ruas de Curitiba, em protesto às medidas repressivas da ditadura militar que prendia, assassinava estudantes e professores, tentava destruir a organização estudantil proibindo a existência dos diretórios acadêmicos, para implantar à força, o ensino pago nas universidades federais, e não conseguiu.

Everlindo, oriundo da economia, com o nosso coletivo estudantil foi um lutador pela redemocratização da universidade e em defesa da universidade pública e gratuita. Com o tempo, esse nosso coletivo foi se identificando e vendo que tinha uma origem comum, éramos oriundos da esquerda católica, da chamada ação católica, das pastorais, antes de ingressarmos na UFPR.

A partir dessa identidade buscamos aliar a luta estudantil à luta popular nos bairros de Curitiba. Para isso foi determinante o contato que tivemos com os monges do Mosteiro Beneditino, localizado na zona rural de Piraquara, próximo à BR277, cujo Prior era o monge francês Filipe Ledet, grande expressão da Resistência francesa, que após a expulsão dos nazistas da França, decidiu se tornar monge beneditinoFilipe Ledet foi estratégico na articulação do nosso grupo e o mosteiro era um espaço para a esquerda em Curitiba, local de proteção à repressão da ditadura militar.

Os monges ajudaram muitos perseguidos políticos a saírem do país, com segurança. Nessa aproximação com o mosteiro, pudemos juntar várias forças da Igreja local, como as irmãs Vicentinas que tiveram muito apoio para saírem do tradicional convento nas Mercês, em Curitiba irem organizar uma comunidade na periferia, no Boqueirão, próximo ao rio Belém. Com elas, foram alguns leigos como o médico Silvio Miranda, tendo o apoio do sociólogo Ricardo Aléssio e sua companheira Malu, militantes do movimento estudantil na UFPR.

Também se juntaram nessa articulação que chamávamos grupão, o Pe. italiano, Miguel Ângelo Ramero, organizador das comunidades eclesiais de base na paróquia do Xaxim, junto com o Pe. saletino Angelo Perin, que eram os sub secretários da CNBB Regional Sul II. Também lá estávamos nós, LafaElianaRegina e EverlindoGil CarvalhoEurides Mescolotto (esses dois eram seminaristas palotinos), Maria do Carmo AlbuquerqueIdeli Salvatti, estudantes da UFPR e militantes nas comunidades de base na Vila Santa RosaSolitude, paróquia das Vilas Oficinas sob responsabilidade dos padres palotinos. Foi dentro do mosteiro com a vinda do Monge Marcelo Barros de Recife e os padres Miguel Angelo e Angelo Perin, que decidimos que deveríamos ocupar os espaços pastorais na arquidiocese de Curitiba.

Passamos então a uma divisão de trabalho, sendo que o Everlindo se dedicou à Pastoral da Terra e Pastoral Operária e criação do DIESSE-PR. No início de 1980, com a nossa participação, foi criada a Comissão Pontifícia de Justiça e Paz para dar proteção aos presos políticos da Escola Oficina presos pela repressão, apoio aos expropriados de Itaipu e luta pela legalização dos loteamentos clandestinos no Jardim Itamarati (Xaxim). Esse processo de lutas articulados com outras forças de esquerda, ajudou a organizar as entidades gerais das associações de Bairros: Movimento de Associações de Bairros (MAB) ligado às CEBsUnião Geral de Bairros (ligada a militantes de organizações de esquerda) e Federação de Bairros (ligada ao grupo do Roberto Requião).

Dessa ampla articulação nasce o Partido dos Trabalhadores, nasce também as oposições sindicais da construção civil, que ganhou as eleições no início dos anos 80, após a greve de 1979; a oposição sindical metalúrgica, que enfrentou os pelegos na greve do final dos anos de 1970. Essa greve foi duramente reprimida, com demissões de companheiros. Everlindo, foi fundamental para encontrar junto com os companheiros e a pastoral operária uma saída e assim criaram uma pequena metalúrgica para os demitidos continuarem a luta da categoria.

Desse processo nasce também a CUTPR, a CUT Nacional. É um momento crucial para a continuidade das nossas lutas. A Igreja local por influência de um bispo auxiliar passa a perseguir o nosso grupo pela influência que passou a ter nas pastorais, na Comissão de Justiça e Paz, na formação dos leigos pela criação do Instituto de Cultura Eclesial (ICE) que formava as lideranças das Cebs e movimentos sociais.

Diante dos riscos que pressentimos para os movimentos que atuávamos, surgiu uma luz. O Pe. Miguel Ângelo propôs buscar recursos na Itália, o que fez, e assim criamos o Centro de Formação Urbano Rural Irmã Araújo – CEFURIA, que continua firme, dando continuidade a essa luta histórica.

Everlindo, participou de todo esse processo histórico, foi fundamental para os êxitos das nossas lutas, deixou a sua marca por onde passou e continuará presente conosco sempre, onde houver uma luta, uma celebração, uma festa ele estará presente com seu lugar reservado. Continuará conosco pelas lideranças que formou e que hoje atuam em várias frentes, nas universidades, nas pastorais, nos movimentos populares, no movimento partidário e sindical.

Everlindo vive!

 

DIEESE no Paraná é fundado por iniciativa do Everlindo

Clemente Ganz Lúcio, sociólogo, trabalhou no DIEESE de 1984 a 2020. Foi supervisor do Escritório Regional PR de 1986 a 1990, Diretor Técnico do DIEESE de 2004 a 2020.

Nossos caminhos se cruzaram a partir do finalzinho dos anos 70, quando eu estava organizando a Pastoral de Juventude de Curitiba e do Paraná e Everlindo Hencklein atuava junto à Pastoral da Terra (CPT), ao Regional Sul II da CNBB, nas articulações da Pastoral Operária, entre outras atividades militantes que realizava. Everlindo fez palestras, fazendo análise de conjuntura nos Encontros que fazíamos com a juventude de Curitiba e do Paraná.

Passamos a trabalhar juntos, no cotidiano, no DIEESE – Departamento Intersindical de Estatísticas e Estudos Socioeconômicos). O DIEESE foi fundado em São Paulo em dezembro de 1955, como um órgão pesquisa, assessoria e formação dos sindicatos brasileiros. Mas foi somente no final dos anos 70 e início dos 80 que se expandiu para os demais Estados.

No Paraná o DIEESE foi instalado no ano de 1981, em assembleia realizada no dia 26 de novembro no auditório da Fetaep (Federação dos Trabalhadores na Agricultura do Paraná). Everlindo foi o principal articulador da instalação do Escritório do DIEESE no Paraná (ER PR). Fez as articulações em São Paulo com Walter Barelli, então diretor técnico do DIEESE, e a equipe de Coordenação (Cesar Concone e Dirceu Huertas), assim como as difíceis articulações com o movimento sindical de Curitiba e do Paraná. Lembremo-nos que estávamos no início da ascensão do novo sindicalismo, as oposições sindicais despontavam e a estrutura e direção sindical da época tinha muito receio das mudanças que estavam em curso.

DIEESE ganhou expressão nacional com a denúncia da manipulação dos índices de inflação pelo Governo Federal (Ministro Delfim Neto), o que favoreceu ainda mais as lutas em curso contra a carestia, as greves históricas dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo, a partir de 1978, a realização da 1ª CONCLAT, o racha sindical e a fundação da CUT em 1983.

Foi no meio desse rebuliço na vida política sindical que Everlindo, com seu método de trabalho cuidadoso, com muita conversa aplicada a um sentido prático de organização e de avanço das lutas, que ele articulou com muitos dirigentes sindicais a criação do ER PR.

Das inúmeras conversas que fez, destaco o papel que cumpriram em apoiar a iniciativa de Everlindo dirigentes sindicais como Augustinho Bukowski (Fetaep), de Antenor Matias (Metalúrgicos PR) e Antônio Santana (Construção Civil de Curitiba), que fizeram os contatos e venceram resistências, convencendo as entidades a fundarem ao DIEESE no Paraná.

Com a criação do ER PREverlindo assumiu a função de Supervisor Regional com o objetivo de implantar a Pesquisa da Cesta Básica, primeira etapa para a instalação técnica do DIEESE no Estado. Cid Cordeiro foi o pesquisador que fez, sob a coordenação do Everlindo, a pesquisa de locais de compra. Iniciaram a pesquisa de preços e sua divulgação. Cid assumiu a Supervisão Regional do DIEESE na primeira metade da década de 2000.

Em 1983 Everlindo convidou-me para instalar as demais atividades técnicas do DIEESE de pesquisa, assessoria e formação, além de ampliar o número de associados do Estado. Iniciei os trabalhos em 1984/1985 e juntos transformamos o ER PR no maior escritório regional do DIEESE em número de entidades associadas. Everlindo ainda foi responsável pela contratação de Nelson Karam, que em 1990 assumiu a Supervisão do ER PR e foi um dos principais responsáveis pela criação da Escola DIEESE de Ciências do Trabalho.

Outra atividade que realizamos juntos foi a instalação da primeira subseção do DIEESE no Sindicato dos Petroleiros do Paraná, depois ampliada para incluir Petroquímicos PR. Trabalhei na instalação da Subseção e, em 1986, assumi a Supervisão do ER PR. Everlindo assumiu a Subseção dos Petroleiros e Petroquimicos do PR, que fazia a assessoria à Campanha Nacional dos Petroleiros junto à Petrobras. Ele foi um dos articuladores e formuladores do projeto que criou a subseção nacional junto à Federação Nacional do Petroleiros, instalada no Rio de Janeiro, no final dos anos 80.

Observe-se que Everlindo articulou e formou uma equipe técnica comprometida com o DIEESE, todos com mais de 30 anos de casa e que cumpriram papeis essenciais na organização e direção nacional do DIEESE.

Sua vida profissional foi dedicada às funções como economista servidor público estadual zelando pela qualidade das informações, das propostas e políticas públicas, pela boa aplicação dos recursos públicos. Formou também neste espaço de atuação profissional uma geração de técnicos que aprenderam com ele sobre orçamento e finanças públicas.

A competência técnica, a apurada capacidade analítica e interpretativa da realidade, a cuidadosa forma de expressar opiniões foram marcas da sua atividade profissional, presentes nos mais variados espaços de militância e na relação com as pessoas, assim como foi uma presença técnica respeitadíssima e admirada junto à equipe no Paraná, junto à equipe nacional do DIEESE e junto aos dirigentes sindicais.

Sentiremos falta da sua companhia pelas trocas, pelo companheirismo e pela atenção que sempre dedicou a todos, pelo seu caráter humanista presente nas relações e nas suas ações, a sua fala sempre em tom mais baixo, mais muito forte em valores como solidariedade, justiça, igualdade e sempre buscando convergências, algo essencial hoje.

 

 

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